Mostrando postagens com marcador Texto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Texto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O Calor do Norte

O tumulto deixara Eddard confuso, mas a conclusão do discurso do falso o rei fora clara: “Sor Ilyn… Traga-me sua cabeça!“. Podia ouvir os gritos de sua filha mais velha preso em uma impotência desesperadora. Lembrou-se de súbito que a mais nova estava aos pés de Baelor, levantou a cabeça para um último vislumbre e, grato aos deuses, pôde conferir que lá já não mais estava. Sua vida não tinha valor para si mesmo, havia aprendido desde cedo a morrer, mas não suportava a ideia de que suas meninas teriam que assistir àquilo.

Ao abaixar novamente a cabeça e aceitar seu destino, o rápido momento de sua execução se transformara em horas. De olhos fechados, nas costas do Lobo Gigante de sua Casa, voltara ao lar… À Winterfell… À Catelyn.

Ao chegar ouviu o som de sua voz ao gritar para Bran “não escale!”, a chamou, quando ela virou-se pôde ver o brilho em seus olhos, a abraçou e podia sentir na pele o calor de seus braços envoltos em seu pescoço, o doce sabor de sua boca ao beijá-la mais uma vez. Em suas mãos podia sentir cada parte do corpo da amada. De repente estavam novamente em seu quarto, e as águas escaldantes que corriam nas paredes como sangue corre pelo corpo de um homem, lhes proporcionaram um agradável clima, deitou-se com ela em sua cama, a aconchegou em seu colo e pôde acariciar-lhe os belos cabelos… Adorava os cabelos de Catelyn. Amou-a então mais uma vez.

No momento seguinte, regressou ao Bosque Sagrado e sentou-se diante do represeiro, encarou-o nos olhos para uma última prece… Antes que pudesse fazê-la, foi despertado. Quando abriu os olhos, descobriu-se a ter seu último sonho. Winterfell, seu lar, sua amada, seus filhos… Lá não havia mentiras, frivolidades, ganancia, jogos, ou traições. Lá podia sentar-se a mesa com apetite e desfrutar de noites bem dormidas. Percebera então que no gélido clima do Norte, ficara todo o calor de sua vida, e naquele lugar, mesmo com o Sol imponente sobre sua cabeça, tudo que lhe sobrara era… Gelo.


Texto escrito por Tatiane do blog Compasso Descompassado 
Inspirado na obra “As Crônicas de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Sobre o Primeiro Amor...

Foi em uma aula normal que eu a vi pela primeira vez. Eu tinha 15 anos e cursava o primeiro ano do ensino médio no período da noite, porque trabalhava durante o dia, assim como quase todos em minha sala.

Já estávamos na metade do ano quando a diretora do colégio interrompeu a aula e apresentou nossa nova colega de classe, que entrou timidamente e sentou na primeira carteira próxima da porta. Os meninos da sala não falavam em outra coisa a não ser sobre o quão bonita ela era.


Uma das coisas mais incríveis em ser adolescente é a descoberta de novos sentimentos. A primeira paixão deixa marcas tão profundas que mesmo após quase 15 anos, ainda consigo lembrar detalhes. Lembro de como ela gostava de se vestir, lembro de seus cabelos castanhos, longos e lisos. Ela tinha olhos verdes e um lindo sorriso.

Mesmo sendo bastante tímido, não sei como eu encontrei coragem para falar com ela. Ela correspondia meus olhares, e meus sorrisos acanhados. Uma semana se passou e na medida do possível me aproximei dela. Certo dia não tivemos as duas últimas aulas e gentilmente eu fiz companhia para ela enquanto seu pai vinha buscar - la.

Sentados próximo à esquina, encostados no muro do colégio, eu confessei que estava gostando dela e sob um bonito luar, com o coração acelerado e sentindo borboletas em meu estômago, aconteceu nosso primeiro beijo.

Quando se trata do primeiro amor, a intensidade dos sentimentos e a emoção transbordante de cada momento faz com que as memórias sejam vivas e claras. A nostalgia que senti ao contar esse pequeno pedaço da nossa história é indescritível.

Foi como se eu tivesse revivido meu caminho de volta para casa, com aquele sorriso no rosto impossível de ser contido, depois que seu pai buscou você naquela noite.


Escrito por Don.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Reverência ao destino, por Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Michelle Blades
Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso. E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação. Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.
Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado. Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar. Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto. Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?" Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado. Difícil é amar completamente só. Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca. Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las.Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber. Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade. Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo. Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida. Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica. Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites. Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Crônica de Arnaldo Jabor sobre a Mulher Ideal


"É melhor você ter uma mulher engraçada do que linda, que sempre te acompanha nas festas, adora uma cerveja, gosta de futebol, prefere andar de chinelo e vestidinho, ou então calça jeans desbotada e camiseta básica, faz academia quando dá, come carne, é simpática, não liga pra grana, só quer uma vida tranqüila e saudável, é desencanada e adora dar risada.
Do que ter uma mulher perfeitinha, que não curte nada, se veste feito um manequim de vitrine, nunca toma porre e só sabe contar até quinze, que é até onde chega a sequência de bíceps e tríceps.
Legal mesmo é mulher de verdade. E daí se ela tem celulite? O senso de humor compensa.
Pode ter uns quilinhos a mais, mas é uma ótima companheira. Pode até ser meio mal educada quando você larga a cueca no meio da sala, mas e daí?
Porque celulite, gordurinhas e desorganização têm solução. Mas ainda não criaram um remédio pra FUTILIDADE! (Arnaldo Jabor)"

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O homem trocado - Luis Fernando Veríssimo

O homem trocado

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de
recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem.
- Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo.
- Eu estava com medo desta operação...
- Por quê? Não havia risco nenhum.
- Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos...
E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca
de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de
orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos
redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou
com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não
soubera explicar o nascimento de um bebê chinês.
- E o meu nome? Outro engano.
- Seu nome não é Lírio?
- Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e...
Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não
fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na
universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista.
- Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês
passado tive que pagar mais de R$ 3 mil.
- O senhor não faz chamadas interurbanas?
- Eu não tenho telefone!
Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram
felizes.
- Por quê?
- Ela me enganava.
Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas
que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico
dizer:
- O senhor está desenganado.
Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma
simples apendicite.
- Se você diz que a operação foi bem...
A enfermeira parou de sorrir.
- Apendicite? - perguntou, hesitante.
- É. A operação era para tirar o apêndice.
- Não era para trocar de sexo?


Luis Fernando Veríssimo

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Contos Plus One: Chamada a escuridão

Chamada a escuridão

Já era tarde e estava chovendo muito, motivos o bastante para Samuel rejeitar uma ultima chamada, contudo o dinheiro que Samuel ganhava como taxista mal estava dando para cobrir as despesas da família. O problema era que sua esposa Sarah estava tendo uma gravidez complicada e a poupança que eles tinham feito não foi o suficiente para cobrir os custos do tratamento.

Ele sabia do perigo que estava correndo ao sair a noite, sua profissão lhe ensinou a não duvidar da maldade humana. Samuel não carregava muito dinheiro, pois já havia sido assaltado varias vezes, e desde a ultima vez que isso tinha acontecido, prometeu a sua esposa que não trabalharia mais depois que tivesse escurecido.

“Não precisamos tanto assim de dinheiro, tua vida é mais importante”, eram as palavras daquela mulher que ele amava tanto.

Mesmo sabendo que ela tinha razão, parte dele acreditava que ela dizia isso por ciumes. Sarah sabia que antes dela, varias outras mulheres já tinham sido seduzidas por ele. Foi em uma chamada de táxi que eles se conheceram e depois de algum tempo a levando em seu táxi, ele conseguiu o que queria. Depois de muita conversa, Sarah acabou se entregando a ele também. Mas o que o taxista não esperava era que acabaria se apaixonando perdidamente.

Aproximando-se do lugar combinado, avistou uma figura sombria esperando encostada ao muro tentando abrigar-se da chuva. Olhou melhor e viu que era uma mulher e por um breve instante sua mente divagou em possibilidades de como aquela noite poderia terminar. “Não posso! Eu amo minha mulher, não vou deixar que um passageiro momento de luxuria acabe com nosso relacionamento de que já dura anos.” E sentiu vergonha pelo seu comportamento.

Parou o taxi, abriu a porta e a moça veio correndo agradecida. “Ela está com a roupa toda molhada, vai molhar o assento do meu carro…” não conseguiu concluir o pensamento, pois perdeu-se admirando a roupa molhada colada ao corpo e o movimento dos seios da moça enquanto ela corria. “Eu sou mesmo um pervertido, Sarah me perdoe…”

Quando ela entrou, ele confirmou pelo retrovisor o que já sabia, ela era realmente linda. Descobriu que seu nome era Ana e conversaram durante todo o trajeto. Ela estava muito grata por ele ter vindo tão tarde. “Ela está sendo muito simpática, isso não vai acabar bem”. Parando em frente ao endereço, Ana demorou-se dentro do carro e quando Samuel virou para ver o porque da demora, foi surpreendido com um beijo em sua boca. “Eu vou pro inferno… Sarah, me perdoe…” Quando deu por si, Samuel estava no banco traseiro sem camisa, aos beijos com a jovem que ele tinha acabado de conhecer.

De repente uma luz forte e um solavanco interromperam aquele momento íntimo. Assustado Samuel percebeu que um carro bateu atrás de seu táxi. Ele saiu na chuva para ver o estrago e exigir que pagassem pelo dano, quando foi surpreendido por um revolver apontando para seu rosto. Do carro desceram dois homens ambos armados. O que dirigia o carro era alto e com um porte físico que deixava óbvio o uso de anabolizantes. Ele usava um moletom preto com capuz. O outro homem, mesmo sendo bem mais baixo e magro, era o que realmente assustava. Ele usava um terno fino e tinha um olhar maníaco em seu rosto.

Quando Ana saiu do carro, num piscar de olhos o homem de terno disparou dois tiros, o primeiro acertou o joelho de Samuel, que caiu em agonia no chão. O segundo disparo acerta o rosto da jovem, a deixando com um aspecto macabro o que outrora fora belo.

“Esse foi meu castigo, Sarah me perdoe…” Mesmo com o joelho destruído, Eles obrigaram Samuel a colocar Ana no porta-malas de seu táxi e a guiar para uma ribanceira que ficava próxima de onde estavam. Samuel estava perdendo muito sangue e quase não estava conseguindo permanecer acordado.

Finalmente a perda de sangue fez com que Samuel desmaiasse. Seu peso acelerou ainda mais o carro que caiu ribanceira abaixo dentro de um lago. Quando a água começou a entrar no carro, ele teve o azar de recobrar a consciência e nos últimos minutos de vida que lhe restavam antes de se afogar, uma vez mais ele pensou “Sarah me perdoe…” e a escuridão das profundezas juntou-se a escuridão da noite, a qual sua profissão de taxista lhe havia ensinado que era melhor evitar.



Autor: Saulo Baia Lopes

sábado, 28 de março de 2015

A Fábula do Escorpião e o Sapo

Um dia, um escorpião olhou ao seu redor na montanha onde vivia e decidiu que queria uma mudança. Ele, então, partiu numa jornada através de florestas e colinas. Ele passou sobre pedras e sob vinhas e continuou em frente até alcançar um rio.
O rio era largo e rápido, e o escorpião parou para reconsiderar a situação. Ele não via nenhum caminho através. Ele correu rio acima e verificou abaixo, o tempo todo pensando que talvez tivesse que voltar.
De repente, ele viu um sapo sentado nos juncos na margem da correnteza do outro lado do rio.
"Olá, Sr. Sapo!" chamou o escorpião sobre a água, "Você faria a gentileza de me dar uma carona nas suas costas para atravessar o rio?"
"Mas bem, Sr. Escorpião! Como sei que, se eu tentar ajudá-lo, você não vai tentar matar-me?", perguntou o sapo hesitantemente. "Porque", respondeu o escorpião, "se eu tentar matá-lo, eu também morreria, pois você bem vê que não sei nadar!"
Isso pareceu fazer sentido ao sapo, mas ele perguntou: "e quando eu me aproximar da margem? Você ainda poderia tentar me matar e voltar para a terra!"
"Isso é verdade", concordou o escorpião, "mas aí eu não seria capaz de chegar ao outro lado do rio!"
"Certo... com saberei que você não vai esperar até que atravessemos o rio e então me matar?", perguntou o sapo.
"Ah", murmurou o escorpião, "porque após você me ajudar a atravessar o rio eu estarei tão grato por sua ajuda que seria muito injusto recompensá-lo com a morte, não seria?"
Então o sapo concordou em levar o escorpião através do rio. Ele nadou para a margem e se posicionou na lama para pegar seu passageiro. O escorpião rastejou para as costas do sapo, suas garras afiadas espetando o couro macio do sapo, e o sapo escorregou para dentro do rio. A água lamacenta rodopiou em volta deles, mas o sapo se manteve próximo à superfície para que o escorpião não se afogasse. Ele esperneou com força na primeira metade da correnteza, suas patas batendo contra o rio.
O sapo sentiu uma forte picada e sabia que o escorpião o havia espetado. "Por que você fez isso", perguntou ele, "se você me ferroar vamos ambos afogar". Disse o escorpião: "perdoe-me, mas não posso evitar pois é minha natureza. Não farei de novo." Então o sapo continuou a nadar e, alguns minutos depois, sentiu outra ferroada. "Escorpião", disse ele, se você ferroar não poderei levá-lo através do rio e nos afogaremos ambos."
"Não foi minha intenção", disse o escorpião. "É minha natureza mas não acontecerá de novo".
Eles estava quase do outro lado do rio, quando o sapo sentiu uma terceira ferroada aguda nas suas costas e, do canto de seus olhos, viu o escorpião retirar o ferrão. Um torpor intenso começou a lhe afetar os membros.
"Seu tolo!", esbravejou o sapo, "Agora ambos morreremos! Por que você fez isso quando disse que não faria de novo?"
O escorpião encolheu os ombros e saltitou nas costas do sapo que se afogava. "Não pude evitar. É minha natureza." E ambos afundaram nas águas lamacentas do rio veloz.
Moral: Cada ser age conforme a sua natureza. De um escorpião venenoso não se pode esperar outra coisa, assim como uma pessoa de caráter ruim. E o sapo representa as pessoas boas que mesmo sabendo do perigo estende as mãos, e no fim acaba se machucando.